Há algo a mudar discretamente por trás de toda a conversa sobre licenças no circuito de clubes pela Europa. Um novo estudo da AlphaTheta, com 2.500 pessoas no Reino Unido, França, Alemanha e Espanha, mostra que mais de um terço da Geração Z e dos millennials acredita que os melhores sets de DJ acontecem em festas em casa. Seja por dificuldades financeiras em manter os clubes locais vivos ou simplesmente por uma vontade de voltar ao básico, é difícil dizer — mas os dados apontam para alguma coisa.
Isto pode soar como mais uma queixa de que sair à noite acabou, mas não é bem essa a ideia. Na verdade, pode até sugerir ligeiramente o contrário: que a indústria está a redescobrir o seu propósito original e a perceber onde está a verdadeira autenticidade. A mesma pesquisa mostra que mais de um quarto dos jovens DJs tocaram o seu primeiro set numa festa em casa, num ambiente acessível e, em grande parte, livre de validação externa — algo que revela uma perspetiva muitas vezes ignorada.

Esse detalhe importa. Porque prova que as carreiras artísticas sempre dependeram de fome e curiosidade, muito antes de qualquer legitimidade entrar em cena. O próprio estudo aponta para DJs como Fabio, frequentemente descrito como o padrinho do drum and bass, e Snoochie Shy, da BBC Radio 1, que ambos situam os seus começos nesses espaços informais. Não foram pensados como etapas intermédias, mas tornaram-se fundamentais na evolução do seu percurso artístico precisamente por permitirem experimentar sem grandes limitações.
Podemos afirmar que a maioria dos DJs ganha a sua primeira exposição neste tipo de ambiente doméstico, resultando num momento marcante que os leva a tentar por si próprios. São espaços seguros para ser curioso, falhar, testar coisas e, no fundo, funcionam como o campo de treino para o futuro da música eletrónica. A menos que vivas debaixo de uma pedra e nunca tenhas ido a uma festa em casa, pensa na tua experiência típica. Conheces a sensação — é bastante livre, tanto a nível artístico como social.
E se formos reduzir aos valores essenciais da cultura de clubes, destacam-se sobretudo a experiência quase ritual de misturar faixas e a necessidade de expressão musical, especialmente dentro de uma identidade e comunidade partilhadas. Com isto em mente, estes espaços são onde a cultura se constrói discretamente. E tendo em conta que o apoio das entidades governamentais tem vindo a diminuir significativamente ao longo dos anos, isso reforça como as festas em casa sempre funcionaram como verdadeiros polos culturais, onde a música eletrónica nasce e existe sem precisar de qualquer previsão de lucro.

É, então, uma faca de dois gumes o desaparecimento dos pequenos clubes. Tendo sido atingidos pelo aumento das rendas, pelas leis do ruído e por apoios irregulares, muitos espaços foram obrigados a fechar e continuam a desaparecer, o que torna inevitável pensar que a cultura da música eletrónica caiu nas mãos erradas. Basta olhar para a Europa: as políticas favorecem claramente os grandes espaços e a imagem do turismo em detrimento dos ecossistemas locais, já que, no papel, as salas maiores parecem mais seguras. Porque entregam dados, receita e, sim, adivinhaste, manchetes. A ideia original desta cena underground era precisamente escapar a tudo isso.
Por isso, quando esta base de apoio para criativos emergentes e jovens DJs começa a faltar — como, de certa forma, sempre faltou — a única alternativa é encontrar outro lugar para ir. A cena move-se, em geral, com uma determinação quase fervorosa, daquelas que só existem quando se está verdadeiramente sem amarras, talvez até com algo a provar depois de uma desilusão. A intenção inicial de criar uma festa DIY pode ser apenas a de viver a música livremente, mas o efeito é também assumidamente anárquico, provando que a paixão é mais forte do que o tijolo e cimento e, acima de tudo, mais forte do que a ganância.
É aqui que entra em cena a linhagem da cultura das free parties e das raves — e quase seria rude não a mencionar. Foram elas que pegaram na energia doméstica das festas em casa e a ampliaram, em desafio a um sistema que praticamente a expulsou pelo preço. As free parties provam que os ravers verdadeiramente fiéis à sua música estão dispostos a enfrentar acusações criminais para recuperar uma pista de dança autêntica à sua forma original. Quando o elemento “anárquico” entra em ação, é porque as pessoas querem música alta e um espaço seguro para se libertarem, mas isso também é, por si só, uma afirmação.

Nada disto torna os pequenos clubes obsoletos. Pelo contrário, até reforça a sua importância. Seria absurdo negar que é nos clubes que as cenas se profissionalizam, que os sistemas de som atingem todo o seu potencial e que os artistas trabalham com um nível de qualidade técnica que poucas pessoas na casa dos vinte alguma vez conseguiriam ter em casa. As festas em casa dão-nos um ponto de partida para a conversa musical, mas é nos clubes que o nível realmente se consolida. E, ao que tudo indica, essa dinâmica não vai desaparecer.
Ainda assim, esta mudança diz muito. Onde é que a cultura genuína prospera? Cada vez mais, são os jovens criativos sem grande dinheiro — e não os donos de espaços — que mantêm viva a cultura de clubes na Europa. Na ausência de apoio significativo, as economias informais construíram infraestrutura suficiente para continuar fiéis à razão original pela qual as pessoas saem à noite. Entretanto, as mesmas instituições que empacotam a “economia da vida noturna” em documentos estratégicos são aquelas apesar das quais a cena continua a sobreviver. E isso é, em parte, o que esta investigação expõe, tenha sido essa a intenção ou não.

Há uma certa ironia no facto de uma marca sinónimo de equipamento de nível profissional para clubes estar a documentar um movimento construído com controladores emprestados e software desatualizado. No fundo, o prazer desta forma de arte sempre esteve na comunidade e no desfrutar, não no lucro. Essa ideia começa a desgastar-se quando se espera que os artistas justifiquem atuações de três horas perante investidores, ou quando o sucesso se torna necessário apenas para manter um espaço financeiramente viável. Ainda assim, como sempre, o capitalismo encontra forma de transformar tudo em produto, apagando a autenticidade crua e as intenções iniciais que deram origem à cultura e que a mantiveram viva ao longo do tempo.
Quase 70% dos participantes do estudo disseram querer mais destes encontros, já que é claramente o que mais ressoa com eles, e mais de metade da Geração Z e dos millennials afirmou que as festas em casa são onde a descoberta musical acontece de forma mais natural. Dito isto, não seria justo dizer que as autoridades públicas estão totalmente ausentes. Um pouco por toda a Europa, os governos começam a reconhecer a vida noturna como infraestrutura cultural, financiando projetos de insonorização e reconhecendo formalmente a cultura de clubes como património. E isso já é um bom começo.

Ainda assim, grande parte desse apoio chega tarde, muitas vezes quando a cena já provou o seu valor de forma independente, reforçando a ideia de que as políticas tendem a seguir a cultura, em vez de a moldar. Por outras palavras, a autenticidade mantém-se quando o lucro ainda está longe de entrar na equação.
Os clubes vão sempre importar. Mas se decisores políticos e promotores continuarem a ignorar o lado mais pequeno e mais humano da cultura de dança, a atividade vai continuar a desviar-se para outros lugares. O que levanta uma questão final: será que a cultura de clubes se manteve autêntica precisamente porque o apoio sempre foi inconsistente? E, se o abandono ajudou a preservá-la, como é que se financia algo assim sem achatar precisamente as qualidades que o tornaram relevante desde o início?
